segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Canção do Exílio

Sempre souberam das minhas idéias subversivas. Sempre tiveram medo que me aproximasse de política, movimentos sociais. A cor vermelha é temida dentro de casa. A palavra socialismo nunca é ouvida sem um tremor. Anarquia e comunismo são como xingamentos da pior espécie. Torturas da ditadura são lembradas sempre quando se fala de manifestações ou reivindicação de direitos. Tanto medo.
Meu ateísmo é visto com desconfiança. “Ficar” com garotos é promiscuidade, quase um pecado. “Esses seus novos amigos” são todos uns revolucionários-sem-causa, perdidos. Tudo é perigoso. Tantas coisas podem fazer mal, prejudicar meu futuro.
Não escreva seu nome, não dê seu telefone, não freqüente essas reuniões. Cuidado com o que fala, não entre nas fotos, nada de ir para frente das multidões.
Tudo isso é vontade de atenção, minha filha. Você não se sente reconhecida dentro de casa? Querida, isso é fase. Eu também fui jovem. Você deve se preocupar com a física-química-matemática. É isso que vai garantir seu carro-novo no futuro, o seu bom-emprego. Daqui a 20 anos você vai me agradecer por não te deixar ir.
Mas e se não for só fase? E se daqui a 20 anos os meus ideais não mudarem? É tão subversivo achar que não existe algo superior que nos controla e que todos somos iguais e merecemos os mesmos direitos?


Eu quero sim ir atrás da minha crença. Se toda motivação for apenas o fervor da juventude, então irei aproveitá-la até a última gota. Eu tenho noção que talvez meus ideais não me levem a algu lugar específico, que talvez eu passe por algum tipo de repressão; mas mesmo assim eu vou tentar.

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